Aos 63, Cássia Kis orgulha-se das rugas: “Meu rosto tem história pra contar”

Cássia Kis não esconde a realização pelo trabalho em Desalma. “Sou uma mulher de 63 anos de idade e 41 anos de profissão e é uma delícia ser presenteada com um projeto dessa magnitude, dessa força”, afirmou a atriz, que interpreta a bruxa Haia na trama assinada por Ana Paula Maia, que conta ainda com nomes como Cláudia Abreu e Maria Ribeiro no elenco.

Mãe de Maria Cândida, Pedro Miguel, Pedro Gabriel e Joaquim Maria, Cássia conta que o período de isolamento social tem sido de extremo respeito ao confinamento. “Não abro mão dessa oportunidade de vivenciar a volta para dentro e a experiência de ter quatro filhos dentro de casa”, afirma a atriz, que perdeu a mãe, Piedade Monteiro, em 2020. “Ela não foi vítima da Covid, mas tem dois meses que ela morreu. Consequentemente, a gente fez um mergulho para dentro de nós para poder entender o que é a vida, quem sou eu, para onde eu vou. A história traz a oportunidade de refletir sobre isso. Tivemos que tirar o pé do acelerador de nossas vidas e tivemos que voltar para casa, estar em casa. Há uma gente que insiste em ir para rua sem a menor necessidade. Ainda estamos nessa vida, com mais de 150 mil pessoas desencarnadas.”

Sobre o personagem em Desalma, a atriz diz: “Gosto de ter a imagem da bruxa como referência para trabalhar. Ela traz força, traz dor, traz solidão, traz maldade. Muita maldade ou não. Gosto de pensar na Haia como bruxa, pensar na possibilidade de escutar ?e aí, Dona Bruxa??. Acho que vai ser legal”. Cássia também fala sobre seu visual longe das gravações. “Estou muito enrugada. Estou doida para deixar o cabelo branco e mais comprido. Achei que fosse conseguir na pandemia, mas há um mês peguei a máquina e raspei. Não estava aguentando mais.”

Quem: Como surgiu a chance de fazer Desalma?

Cássia Kis: Eu e o Manga [o diretor Carlos Manga Jr.] tivemos um encontro em uma livraria para ele me falar sobre o projeto. Sempre quis trabalhar com a Maria Ribeiro e reencontrar a Cacau [Claudia Abreu] foi muito importante. Afinal, fizemos uma novela também importante 30 anos atrás. Eu lembro da força da Cacau. Vamos combinar que ela era muito mais protagonista do que eu em ‘Barriga de Aluguel’. Esse novo encontro – com quatro filhos cada uma, novos dramas, novas alegrias – acontece em uma história tão singular, tão forte e tão bonita. Não acho que esses encontros sejam por acaso. Há alguma coisa que comunga esse encontro meu, da Cacau, da Maria, dos jovens atores? Ainda vamos viver mais encontros em uma segunda temporada e, quiçá, numa terceira.

Empolgada com a possibilidade de continuidade da série?

Sou uma mulher de 63 anos de idade e 41 anos de profissão e é uma delícia ser presenteada com um projeto dessa magnitude, dessa força. Claro que estou longe da Fernanda Montenegro, com seu talento e seus 91 anos, mas quando surge um projeto assim não tenho escolha a não ser abraçá-lo de verdade.

E o que podemos esperar da Haya, sua personagem em Desalma?

Ela é uma mulher só, com uma história difícil, em uma cidade difícil? Não gosto da palavra expectativa. Gosto da construção com esforço constante. De preferência, com bastante inteligência para que a gente consiga chegar ao objetivo. Bom, isso é papo de budista (risos). Apesar de eu não ser budista, gosto dessa cultura. Não tenho expectativa, mas tenho vivido um esforço lindo para a construção dessa história. Quando a gente vê o resultado da cena em imagem, vem aquele lance de “what is this?” (risos). Quando chega uma imagem, temos o primeiro impacto.

A estreia de Desalma foi adiada até finalmente chegar ao streaming no fim de outubro. Há uma curiosidade para saber como o projeto será recebido?

A série ser lançada neste momento, em que estamos vivendo a pandemia, é interessante. Gosto do budismo e tenho uma relação forte com o espiritismo e o cristianismo. Perdi a minha mãe durante a pandemia. Ela não foi vítima da Covid, mas tem dois meses que ela morreu. Consequentemente, a gente fez um mergulho para dentro de nós para poder entender o que é a vida, quem sou eu, para onde eu vou. A história traz a oportunidade de refletir sobre isso. Tivemos que tirar o pé do acelerador de nossas vidas e tivemos que voltar para casa, estar em casa. Há uma gente que insiste em ir para rua sem a menor necessidade. Ainda estamos nessa vida, com mais de 150 mil pessoas desencarnadas.

Como tem sido seu período em isolamento social?

Não abro mão dessa oportunidade de vivenciar a volta para dentro e a experiência de ter quatro filhos dentro de casa. Um é adolescente, tem 16 anos, mas os outros três já são adultos. Observo as conversas que temos em casa, o fato da minha mãe ter desencarnado nas condições que foi (chora). Desculpe. Realizar essa conversa com você, via internet ,só confirma a importância de lançarmos essa série neste momento. Quero enfiar o pé nesse autoconhecimento. Perder a minha mãe – não a perdi, mas ela ascendeu e fico imaginando onde ela possa estar – me fez refletir sobre o legado dela, a importância dela ter escolhido ter uma filha, o que é a desintegração de uma família, como ficamos amarrados em mágoas. Tem coisas que a gente olha para trás e não caminha, mas é importante deixar para trás pela nossa evolução.

Avalia a importância de não ficar amarrada a questões do passado?

Esse período também tem me feito refletir muito sobre um aborto que fiz. Não tive quatro filhos. Eu tive seis. Meu primeiro filho foi um aborto que fiz, outro perdi espontaneamente e aí vieram os quatro. Esses abortos mexeram tanto comigo que fui buscar registrá-los nessa temporada, neste evento que estamos vivendo. Fui batizar esses meus dois primeiros filhos e inclui-los na minha vida. Afinal, são duas vidas e duas luzes muito fortes que quiseram entrar na minha vida e não foi possível. Na minha maneira de enxergar a vida e o mundo, vejo como é necessário mais integração, respeito, mais coerência. O nível de irresponsabilidade sobre o que a gente fala, faz, pensa, age. Preciso ter comigo mesma. Não adianta fazer escondida. Não adianta ter uma ética dentro de um grupo e fora dele ter outra. Isso está me fazendo descobrir o valor da vida.

Adotou alguma mudança ao descobrir esse valor da vida?

Eu nunca me cuidei tanto. Tenho um filho de 16 anos e é impressionante como ele se cuida. Moro numa casa gigante, em uma floresta, em plena Barra da Tijuca. Meu filho de 16 anos não sai de casa há seis meses. Ele sabe que tem uma mãe de 63 anos e precisa ser coerente com o que ele acredita e com o amor que tem pela mãe.

Você cita sua idade sem a menor encanação. Sempre foi bem-resolvida com isso?

Minha avó paterna era húngara. Pele clara, sem colágeno, quase transparente. Lembro daquele tanto de rugas que ela tinha. E eu, hoje, com 63 anos, já estou bem perto disso. Daqui a pouco, meus filhos pegam minha pele e começam a esticar. Estou muito enrugada, mas, do jeito que está, meu rosto tem história para contar. Quando a gente fez ‘Barriga de Aluguel’, no início dos anos 90, eu tinha muitas marcas de expressão. Muito parecida com meu pai. Gosto de saber que a minha cara tem história. Estou doida para deixar o cabelo branco e mais comprido. Achei que fosse conseguir na pandemia, mas há um mês peguei a máquina e raspei. Não estava aguentando mais.

As bruxas não são recorrentes em nossa dramaturgia nacional. Buscou alguma referência?

Na infância, via histórias de bruxas. A Disney já trouxe muitas histórias de bruxa, também teve O Mágico de Oz, João e Maria, contos da ?carrochinha?? Gosto de ter a imagem da bruxa como referência para trabalhar. Ela traz força, traz dor, trans solidão, traz maldade. Muita maldade ou não. Gosto de pensar na Haia como bruxa, pensar na possibilidade de escutar ?e aí, Dona Bruxa??. Acho que vai ser legal.

Ao longa da carreira, teve algum processo profissional que se assemelhasse a Desalma?

Não, essa economia na interpretação é diferente para mim. Sou uma atriz expansiva. O Manga trouxe essa economia. Quero treinar muito mais daqui para frente. Fui muito bem conduzida neste trabalho. Manga tem qualidade e bom gosto para locações. Tenho 40 anos de experiência como atriz e isso não significa que sempre fui madura. Ao contrário, estou amadurecendo. Para a autora de ‘Desalma’, quis dizer que ela poderá contar com uma atriz melhor e mais madura para a próxima temporada. Meu trabalho é sempre um mergulho interno pessoal, preciso encontrar características da personagem dentro de mim, preciso buscar os dramas, as dores e as alegrias dentro de mim.

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